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Ainda tinha você

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Algumas vezes quando ela sorria com toda graça que tinha, eu lembrava de você, que ria sem graça deixando a ponta do nariz vermelho abaixando o rosto sem graça. De vez em quando eu a via colocando o salto para sair e recordava da sua velha sapatilha confortável dentro da bolsa para quando o pé já não suportasse mais a dor daqueles saltos que você reclamava sempre que tinha que usá-los. Algumas vezes quando ela pedia para eu ir embora depois da briga, eu lembrava que você me pedia para ficar, mesmo brava comigo. Se eu ficasse tava tudo bem e eu sempre ficava.

Dia desses eu a vi tentando cozinhar a lasanha que minha mãe gostava, mas não tinha o mesmo sabor de quando você incrementava nos ingredientes. Minha mãe tentou disfarçar dizendo que gostou, mas eu sabia o que ela tava pensando quando olhou para mim com pesar: ‘porque ta com ela, meu filho? Você não a ama. Cadê aquela outra menina?’. Eu apenas dei de ombros e fingi que tava tudo certo.

Até um dia eu acordei e ela já tava toda arrumada como se não tivesse se preparado para dormir ontem à noite. Ela tava igual àquelas moças das novelas que já acordam super lindas. Daí eu lembrei que você não se importava em acordar às dez da manhã com o cabelo todo bagunçado. Nesse dia eu tive de ser honesto com ela, mas principalmente comigo mesmo. Eu não podia ir adiante com algo que não me fazia estar por inteiro.

Nesse tempo eu descobri que o meu inteiro e que até transbordava era você menina. Com seus poucos cabelos castanhos. Com sua simplicidade de viver a vida. Com sua falta de atenção em se produzir impecavelmente para me impressionar. É que você sabia, eu me impressionava mesmo era com as conversas. Com outros detalhes que para outros passavam despercebidos.

Você sabia que eu gostava de café doce. Sabia que meu programa preferido era comer batata frita na hora do filme em vez de pipoca. Sabia do meu queimado no braço por causa disso. Sabia que quando eu era criança fugi de casa e minha mãe me achou encolhido num daqueles brinquedos de parquinhos que tem de frente a nossa casa. Sabia que minha tosse era alérgica e não de gripe. Sabia que eu ria com aquelas pegadinhas bobas dos programas de TV no domingo.

Eu contei pra ela que ainda tinha você. Contei que tava sendo desonesto. Que ela é linda sem igual, mas que não combinava com o meu coração. Disse a ela o que eu sempre odiei dizer, que um dia ela ia encontrar alguém que a fizesse transbordar. Ela disse que já sabia. Que tava feliz por eu finalmente ter confessado. Agora poderia ir sem peso. Ela foi. E eu voltei correndo pro seu endereço para dizer que eu cometi um grande erro. Você sorriu sem graça deixando a ponta do nariz vermelho abaixando o rosto sem graça.

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