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Nem parecia sermos nós

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Eu era sua bailarina. Rodopiava por todo espaço vazio da casa sob seu olhar. Os passos conseguiam ser completamente ritmados ao som dos clássicos de Beethoven e Chopin. Em todas as minhas apresentações solo, minha única plateia era você. Uma vez torci o pé feio e tivemos de sair correndo para a emergência do hospital. Até hoje eu lembro do desespero que seu olhar transmitia. Você tentava manter a calma, mas eu sabia da sua preocupação pela minha dor. Tudo ficou bem depois que imobilizei o pé. Lembro de voltarmos para casa e você me colocar para dormir ainda cedo. Precisava descansar, você disse no dia.

Eu costumava te observar no piano da sala. Sentava ao seu lado no banco e tentava entender a partitura. Você até tentou me ensinar algumas notas, mas eu não gravava. Eu era sua plateia, também. Às vezes eu dançava ao som da sua musica. Era um show ao vivo de ambos. A parede da sala era de vidro e já vimos o por do sol diversas vezes dessa maneira.

Fizemos um vídeo num desses dias. Posicionamos a câmera de forma que ela filmasse em silhueta. A sombra dos meus movimentos e dos seus. Você tocava piano enquanto eu dançava. Surpreendemos com a qualidade e lembro-me de ficarmos por horas revendo o nosso pequeno filme. Nem parecia caseiro, nem parecia sermos nós. Nunca tive coragem de me desfaz dessa lembrança. Eu ainda o vejo e a sensação não muda. Ainda parece como aquele dia.

Exceto que você não está mais aqui. Exceto pelo fato de que quando o vídeo chega ao fim não tem mais você para apertar o play e dizer vamos ver de novo, amor. Não sei muito bem onde tudo mudou. Lembrar o momento exato em que perdemos o ritmo não é uma tarefa fácil e continua sendo dolorosa. Nunca entendi o dia que você parou no meio das notas e disse, precisamos conversar. E eu já sabia do que tratava, porque eu também queria conversar.

O amor não havia acabado. Mas estava vazio. O espaço da sala ficou gigante para minha coreografia. O piano produzia eco. As risadas deram lugar ao silencio e ele dizia que a gente tinha chegado ao fim. Eu vi você pegar suas coisas depois de decidirmos cada um ir para um canto. Eu sabia que você ficaria bem, você sempre fica. Eu também ficaria.

Eu era sua bailarina. Rodopiava por todo espaço do mundo. Deixei de fazer apresentação solo para uma plateia particular, mas eu levava meus passos por aonde ia, porque eu sabia você estaria ali.  

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