Eu não sou a minha irmã

Todo mundo, mesmo que lá no fundo, tem vontade de ser alguém diferente do que é. De ser uma celebridade, um amigo. Vontade de não per...

Todo mundo, mesmo que lá no fundo, tem vontade de ser alguém diferente do que é. De ser uma celebridade, um amigo. Vontade de não pertencer ao corpo que tem e muito menos a essa vida que leva. Todo mundo tem aquela vontadezinha de mudar alguma parte do corpo ou característica. Acontece que nascemos do jeito que somos e não há nada para fazer que mude esse fato. Ai você me diz que sim, que existem as plásticas, aplicações, cirurgias, mas eu te digo que mesmo mudando fisicamente, nosso interior é o mesmo.

Vou contar um caso antes de continuar o texto. Bem, a minha irmã, um ano e tantos meses mais velha que eu, sempre teve talento para desenhar, sempre criativa e tem o dom de transformar até o própria grafia em arte – não é a toa que escolheu Design –, extrospectiva, sempre foi bagunceira também e mamãe brigava todas as vezes por causa disso. Já eu sempre fui mais organizada e quietinha. Tinha a minha bagunça, mas era tudo dentro de mim, então ninguém podia ver e muito menos brigar comigo.

Sempre achei lindo gente que desenhava e admirava muito que irmã conseguisse transformar tudo ao seu redor em arte. Por diversas vezes me peguei tentando desenhar, mas nunca conseguia. Os traços saiam todos tortos. Teve um dia bem engraçado: ela desenhou o rosto de Jesus e fiquei encabulada, como alguém conseguia desenhar daquele jeito? Fui lá escondido, peguei o desenho dela, peguei uma folha branca, lápis, borracha e comecei a desenhar. O resultado ficou horrível, mas mesmo assim tirei foto dos dois desenhos e postei no Instagram. Todo mundo riu e fez piada, até mesmo eu. Morria de vontade de saber desenhar croqui de moda, mas nunca consegui e ela sim. Queria desenhar na minha própria letra, mas não importava o quanto treinava, nunca ficava bom e a mão dela sempre deslizava com facilidade no papel para desenhar seja o que for. Mas o que eu não sabia e, só fui descobrir algum tempo depois, é que eu já quis ser ela.

Oh, não é inveja não viu? Longe disto. Era admiração mesmo e ainda é. Quando finalmente entendi esse sentimento dentro de mim, cheguei a questionar o que era e não gostar das coisas para o qual eu tinha talento, na época achava que não tinha talento algum. Mas eu sempre soube lidar bem com as palavras, só que eu não queria só saber escrever, queria algo além disso, afinal de contas, a grande parte das pessoas que conheço não gostam de ler e como eu poderia mostrar o meu talento para elas? Sempre menosprezariam.

Até que um dia eu entendi.

Descobri que, enquanto minha irmã transformava tudo ao seu redor em arte, eu transformava tudo ao meu redor em poesia e poesia também é arte. Foi nesse momento que aprendi a valorizar o meu talento e fazer dele o meu sustento, para a alma. Muitas pessoas gostam de poesia também, é só questão de valorizar o que faz que as pessoas também vão valorizar.

Tem essa frase da Anne Frank que diz: “eu sempre reclamava de não saber desenhar, mas agora me sinto feliz por saber escrever” nunca fez tanto sentido na minha vida.

Acredito que essa história de admirar alguém não pode passar disso: admiração. E que não devemos nunca querer ser outra pessoa na vida, afinal cada um é único e possui um talento especial. Se você não sabe qual o seu ainda, não se preocupe, breve descobre. É só questão de assumir quem é sem medo.

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1 comentários

  1. Bem verdade, "esta história de admirar alguém não deve passar disso: admiração."

    Falou tudo!!

    A propósito: também não sei desenhar, rs

    beijoo,
    Dressa
    Blog Dress

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